Identidade e Resiliência
A formação de identidade no jovem pode ter repercussões na sua vida adulta e na sua capacidade de resiliência?
Resumo
Este trabalho procura demonstrar a ligação que pode existir entre a identidade na adolescência e a capacidade de resiliência na idade adulta.
Define os conceitos de identidade e as situações em que esta pode, ou não, ser adquirida com sucesso. Ilustra as circunstâncias em que a resiliência é necessária e os factores de protecção e risco a que cada pessoa está sujeita e que influenciam a sua actuação, bem como os efeitos que ambas podem ter no desenvolvimento do sujeito.
Palavras-chave: Adolescência; identidade; resiliência; desenvolvimento.
A adolescência é uma fase extremamente importante no processo de identidade pessoal, psicossocial e também sexual. A puberdade, que traz consigo as grandes mudanças físicas, ocorre no período inicial da adolescência. Processo difícil, doloroso e confuso, obriga o jovem a descobrir como usar novas ferramentas emocionais para se encontrar a si próprio e se relacionar com o Mundo.
É através das crises, próprias desta fase, que o adolescente se vai confrontar com o problema da identidade e com toda a confusão daí inerente.
Erikson (1968,1982)[1] defende que construir uma identidade implica definir quem a pessoa é, quais são os seus valores e que caminhos quer seguir na sua vida. Salienta também que a identidade só pode ser encontrada através da interacção com outros significativos.
Nesta fase, o jovem experimenta novas sensações, mas tudo acontece ao mesmo tempo, o corpo muda, e ele tem de saber lidar com esta nova imagem, que não lhe agrada. Sente-se diferente e os outros também o vêem dessa forma, por isso, a imagem que tem de si próprio e a sua auto-estima são abaladas. Há uma necessidade de reajustamento a esta nova realidade.
Aqui, os amigos e os grupos de pares têm um papel fundamental. «A interacção com os outros é um pilar para a construção da identidade pessoal, da reestruturação de um conjunto de comportamentos, pensamentos, valores e objectivos pessoais» (Tavares et al., 2007, p.76)
Todos se encontram em situação idêntica, com as mesmas dúvidas, necessidades, mudanças, confusões e preocupações. São por isso solidários e apoiam-se mutuamente. Para muitos, o melhor amigo é aquele com quem se partilham as grandes inquietações, porque de certa forma, naquele amigo está reflectida a sua imagem, tal como ele a sente. Estas relações são fundamentais para a autonomia do jovem e para estabelecer a sua identidade.
Cada indivíduo constrói o seu “eu” através das interacções relacionais, reais e realizadas. Essa identidade vai sendo composta através de um jogo de identificações. Se antes, na infância, o modelo identificativo eram os pais, na adolescência vão ser os grupos de pares e os amigos. O adolescente analisa e põe em causa os objectivos e valores definidos pelos pais e procura alternativas ajustadas a si próprio. Há uma necessidade de mudança ou mesmo de rotura nas relações familiares, que embora possa fragilizar o jovem, é fundamental para um desenvolvimento saudável. E esse afastamento é sinónimo da sua procura pela privacidade e autonomia e necessário para que possa criar ideias e afectos próprios.
Há um desafio constante ao jovem, que envolve as suas atitudes consigo próprio e com os outros, amigos, família e também com o sexo oposto, com os seus gostos e até com as suas vocações para uma carreira futura. É nesta fase, como que numa antecipação ao futuro, que o jovem realiza um “tempo de pausa”, de reflexão para explorar diferentes papeis. Para procurar, e tentar encontrar, a sua verdadeira identidade.
Se este processo for positivo, o adolescente conseguirá ter a sua identidade adquirida com sucesso, uma identidade sólida. Mas, pelo contrário, se o jovem não superou as crises desta fase, não conseguiu fazer a sua evolução completa. Seja por falta de amadurecimento interior, seja por ter entrado demasiado rápido na vida de adulto, isso vai dar origem a uma identidade difusa.
«A estrada para a idade adulta é cada vez mais longa e a tarefa de “ser adulto” (…) aparece como sendo mais exigente na actualidade, passando muitas vezes por ser, ou adiada em termos temporais e a ser completada mais tardiamente, em termos etários»
(Arnett, 2001;Arnett&Tanner, 2006;Rossi,1997. citados por Andrade, 2010)
Este período é designado por “idade de instabilidade”, por ser dedicado à construção de um projecto de vida adulta. É aqui que começam a surgir os compromissos, profissionais, familiares, sociais e o papel de adulto começa a fazer-se sentir ao nível de uma identidade construída que vai substituir a fase anterior, dando lugar ao exercício de papéis de adulto independente.
No dia-a-dia o adulto confronta-se com várias situações adversas que provocam ansiedade e que podem por isso tornar-se em factores de risco.
«Ao assumir uma responsabilidade profissional, o jovem adulto define-se como um indivíduo na sociedade, factor que valoriza o significado da sua vida, este podendo ser fonte de stress ou satisfação. Assim, o conceito que o indivíduo tem de si próprio está intimamente ligado à sua ocupação profissional» (Tavares et al., 2007, p.86)
A capacidade que as pessoas têm de lidar com as adversidades e a capacidade de ultrapassá-las, saindo mais fortalecidas, é denominada de resiliência. É um processo que permite à pessoa resistir às contrariedades com que se depara.
A pessoa resiliente é aquela que é capaz de ultrapassar os obstáculos e as dificuldades que enfrenta, conseguindo adaptar-se a cada situação. Os que não conseguem fazer essa adaptação podem desenvolver traumas e desequilíbrios.
Esta capacidade, ou competência, pode ser modificada ao longo de toda a vida, desenvolvendo-se a ampliando-se ou diminuindo e bloqueando. Isto depende de factores internos e externos ao indivíduo.
Os factores que dificultam a promoção da resiliência podem ser biológicos, psicológicos ou sociais. O impacto que vão ter sobre cada indivíduo varia entre as características do risco, as características da própria pessoa e a sua interacção com o risco. Isto porque o mesmo acontecimento não é entendido, vivido e gerido da mesma forma por todas as pessoas. É a forma como cada um o processa que determina o impacto que a situação vai ter na sua vida.
Por isso surgem os factores de protecção, que são características que facilitam a promoção da resiliência porque contribuem para uma boa adaptação, no sentido de ultrapassar as dificuldades.
«Protecção não é uma “química de momento”, mas o modo como a pessoa lida com as transições e mudanças de sua vida, o sentido que ela dá às suas experiências, seu sentimento de bem-estar, auto-eficácia e esperança, e a maneira como ela actua diante de circunstâncias adversas» (Rutter, 1985,1897,1993, citado por Polleto & Koller p.409)
As características da personalidade, como a habilidade cognitiva, o temperamento, auto-estima ou a reflexão, participam na resiliência.
Factores familiares como o afecto, a coesão familiar e a harmonia resultam numa relação favorável e as características comunitárias ou extra-familiares que provêm dos sistemas de apoio externos que rodeiam o indivíduo, como a comunidade, vizinhos ou mesmo a escola, proporcionam um conjunto de valores positivo.
«Resiliência (…) um processo comum e presente no desenvolvimento de qualquer ser humano (…)» (Poletto & Koller, 2008)
As ideias fundamentais do modelo de desenvolvimento de Piaget e também de Erikson, demonstram que o processo de desenvolvimento humano é contínuo, e que decorre ao longo de todo o ciclo da vida, desenvolvendo-se entre equilíbrios e desequilíbrios, fases de estabilidade e de crise e com mudanças.
A resiliência é um factor de adaptabilidade, que faz parte do processo de desenvolvimento e que permite gerir esta sequência permanente de equilíbrios e desequilíbrios.
A título de curiosidade, assisti ontem na televisão, no programa 60 minutos da SIC NOTICIAS, a uma entrevista com o Mayor de Nova Orleães a propósito do furacão Katrina. Fenómeno devastador que deixou inúmeras famílias literalmente sem nada. Sobre isso, o entrevistado dizia: «O povo de Nova Orleães bateu no fundo. A sua resiliência é que os trouxe para cima». Esta frase ilustra bem o significado de resiliência. Perante uma situação dramática, as pessoas foram capazes de dar “a volta por cima”, enfrentando a situação e adaptando-se à sua nova realidade.
Podemos assim concluir que a resiliência é uma característica positiva, presente no indivíduo, e que o ajuda a superar as dificuldades e a adaptar-se às circunstâncias mais adversas ao longo da sua existência.
A construção da identidade pessoal, é considerada a tarefa mais importante da adolescência porque é um passo crucial para a sua transformação em adulto.
Se esse passo não for bem sucedido, pode comprometer a sua capacidade de resiliência na idade adulta.
2-
Fazer uma reflexão sobre o meu trabalho na UC de Psicologia do Desenvolvimento, não é uma tarefa fácil. Em primeiro lugar porque falar de mim é sempre complicado, por ouro lado porque tenho consciência que não tenho conseguido dar o meu melhor.
As dificuldades estão sempre ligadas à falta de tempo para conseguir apreender convenientemente todas as matérias, como seria ideal. Embora considere muito importantes e interessantes todas as actividades propostas, apenas consegui concluir algumas. Tive de optar entre aproveitar o pouco tempo que tinha para estudar, que naquela altura era precioso, ou para me dedicar a determinada tarefa que era proposta nas actividades.
Os ganhos em termos de aprendizagem são imensos. Como futura técnica de educação, obviamente, serão essenciais para a minha vida profissional, mas também como mãe, que é o meu papel principal. O saldo destas aprendizagens é muito positivo e vai ser-me com certeza muito útil nos próximos anos…
Todos os temas apresentados têm o seu interesse. Evidentemente que alguns me despertaram mais a atenção, como foi o caso da infância e da juventude, provavelmente por serem as fases que os meus filhos estão a atravessar. Mas como referi, todos são úteis para a nossa formação.
A metodologia de trabalho e de avaliação, talvez seja a mais adequada, mas devo confessar que tive algumas dificuldades em acompanhar o ritmo. Muitos textos com imensa matéria importante para apreender, muitas actividades, e mais uma vez, pouco tempo da minha parte.
Uma colega de turma escreveu há tempos no fórum, e eu reforço a ideia com a qual concordo inteiramente, que esta UC deveria ser prolongada. A Psicologia é uma disciplina tão rica, tão interessante e tão importante para a Educação, que me parece poderia seria proveitoso para todos.
[1] Como referido por Costa, A., Mocho, H. & Morgado, L.(2010) – Adolescência e Identidade, Texto de Apoio de Psicologia do Desenvolvimento, Lisboa: Universidade Aberta